quarta-feira, agosto 24

Errar nas apostas

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Nada adianta querer disfarçar, esconder, nem a inveja precisa de vir com mau modo e cara trombuda. As mais vezes chega serena, delicada na aparência, mal se daria por ela não fosse o pequenino trejeito, a suposta omissão, a fingida desculpa, o cumprimento que os obriga a arrastar a fala, porque eles próprios mais que se dão conta do cinismo em que a embrulham.
Há quem a tenha como prato forte, à maneira do cozido, e depois se pergunte de donde lhe vem a azedia, a raiva impotente de não compreender porque acontece aos outros e não a ele, que tem mais capacidade e outro merecimento.
O invejoso vive na certeza de que Deus escreve torto por linhas tortas, daí a benesse alheia e a má sorte que lhe cabe. Mas assim não é, direitas ou tortas Deus escreve por todas as linhas. O que dói ao invejoso é errar sempre nas apostas.

segunda-feira, agosto 22

Um copo de urina em jejum

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Que bicho morderá alguns, para que neles seja tão forte o espírito missionário?
Sermoneia este que devo manter abertas as janelas, de modo a que com a corrente de ar a energia do chi arraste para longe as forças negativas. Quer outro convencer-me a que o faça em casa, por ser mais seguro, mas todos os dias, durante um quarto de hora, me obrigue a andar às arrecuas. Garante ele que o fazem na Lapónia e é excelente treino para o equilíbrio mental e físico.
Um terceiro, igualmente bem intencionado, há anos que em jejum bebe um copo da própria urina, e aconselha-me a que lhe siga o exemplo, pois é a maneira de restabelecer o equilíbrio dos minerais no corpo, aumentar a resistência às infecções, garantir a elasticidade da pele, evitar o Alzheimer.
Os vizinhos, que desde há pouco são jeovás, vieram ontem oferecer-se para me consolarem com as palavras do Senhor.
A todos agradeço, mas andaria mais bem humorado se me deixassem com os meus medos, os meus achaques, o desequilíbrio dos minerais, a pedra na bexiga, e na ignorância do que o Todo Poderoso sussurra aos eleitos.
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Publicado no CM

domingo, agosto 21

"Cinderella Rockefella"

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"Esther e Abi Ofarim? Não faço ideia. Palavra que em 1968 não havia Youtube?"

sexta-feira, agosto 19

"Trabalhar diuturna e nocturnamente"

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Misturando sorrisos, pasmo e tristeza, está aqui uma boa maneira de começar o dia.

quarta-feira, agosto 17

Quantos serão?

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Quantos serão, os que numa tarde de Agosto folheiam a "Imitação de Cristo"  em busca de respostas?

"Envergonha-te, Sion, diz o mar (Isaías, 43,4).
E se perguntas a causa ouve porquê:
Por um ténue benefício andam os homens caminho mui dilatado, e dificilmente dão um passo pela vida eterna.
Buscam um livro vil, e às vezes por pouco dinheiro torpemente litigam, sem recearem cansar-se dia e noite por uma coisa vã, e por uma promessa mesquinha.
Não cuidam esses homens de trabalhar, sequer um pouco, pelo bem imutável, pelo prémio inestimável, pela suprema honra, e pela gloria que não tem fim.
Envergonha-te, pois, ó servo preguiçoso, e tão fácil em te queixares.
Pois há homens mais prontos para a perdição, que tu para a vida.
Com mais gosto buscam eles a vaidade do que tu a verdade."




segunda-feira, agosto 15

A reforma do banqueiro

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Cara porcina, peito inchado, ventre pançudo, dedos em garra, na fotografia o banqueiro é a caricatura de si mesmo. O lápis de George Grosz ficaria aquém para lhe fazer o retrato, todo ele a ressudar ganância, poder e vaidade, bufando que lhe ameaçam a reforma e os privilégios.
Reformas milionárias só as há nas sociedades corruptas e desiguais em extremo, onde proliferam os Mugabes de todo o tamanho.
Para infelicidade nossa, em mais de um aspecto Portugal não pode apontar o dedo ao Zimbabwe.

sábado, agosto 13

Amigos do peito

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Misterioso sentimento o da amizade: ganha-se por nada, perde-se por ainda  menos. Ou talvez não seja bem assim: perde-se porque deixa de ser proveitosa para a outra parte, e vem então ao de cima o triste espectáculo do fingimento, das explicações infantis, das desculpas sem pés nem cabeça.
Desde Junho é a segunda vez que me vejo a contabilizar amizades perdidas, e dou conta de como é verdade: a morrer e a aprender.
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PS. É este o tempo em que vivemos: a foto de Anna Nooshin, fashion blogger que do Irão se refugiou nos Países Baixos, está aqui como malicioso chamariz. © da foto: Cosmopolitan.nl.