quarta-feira, junho 21

Paneleirices

 
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Parabéns aos CTT: sem localidade e o código postal errado chegou ao destinatário.

segunda-feira, junho 19

Ela, ele, os camelos e o guia

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Agosto de 1999, o século a findar. Havia dinheiro, paz no Oriente, podia-se descobrir o mundo. Os diapositivos eram já passado, o telemóvel uma novidade, a câmara digital o progresso.
Tinham estado no Líbano, no Dubai, na Síria, na Jordânia. Bronzeados. Sorridentes. Contando em uníssono que, tirante o calor, tudo tinha corrido à  perfeição. Ó que gente simpática! Então nos restaurantes, cada pratada, aqueles shish kebab! Comia-se com os dedos. Paisagens maravilhosas, únicas. Vocês conhecem Petra? Não? Um sonho! Ao ver aquilo...
A Nikon último modelo passa de mão em mão. Não carregues nesse, carrega  aqui. Aqui? Não! No outro. Esse é de andar para trás. Vira pra este lado. Agora carrega. Isso mesmo.
Fotos do aeroporto. Fotos de nuvens. Do interior do avião. Das hospedeiras. Uma rua de Damasco vista do táxi. Parece que em árabe se diz Dimashq. Umas vezes dizíamos Damasco, ou então Damascus, mas deu sempre certo.
Ela, avantajada, decotada e de calções, defronte de uma loja de tapetes e outra de narguilés. Ele, corpulento e de calções, numa esplanada, os joelhos em primeiro plano. O hotel. O porteiro, de cartola, galões e alamares. O hall do hotel. O quarto do hotel. A paisagem vista do quarto do hotel.
Cenas idênticas em Beirute. Tudo tão moderno! A gente não esperava. Julgávamos… Ele a acenar num camelo. Ela escarranchada num jerico. Ele em Petra. Ela em Petra. Ele diante de um edifício escavado na rocha. Ela diante do mesmo. Eles fotografados pelo guia a apontar para uma ruína. Eles fotografados pelo guia com um casal alemão. Retrato do guia. Velhote simpático. Disse que ia fazer setenta, mas era capaz de ter mais. A pobreza é muita, as pessoas trabalham enquanto podem. Achámos graça que há lá lojas com o nome de Indiana Jones! Souvenirs e até sandes Indiana Jones. Este era o chofer do autocarro. Sempre azedo e ainda por cima mal educado. Estátuas. Uma caverna. Outro autocarro. Uma charrete. Engraçado, não é, vocês estão a ver o burro enfeitado? Camelos. Polícias. Mais autocarros. Um grupo de turistas. Camelos com turistas. Taxistas a fumar. Ruínas. Rochas. Mais camelos. Uma barraca de fruta. Mais uma. Quatro mulheres de burka. Tenho a certeza que não trazem nada por baixo, porque aquilo é um calor! Vocês nem imaginam. Uma garota pedindo esmola. Ela dizia bakshish, bakshish, e o guia explicou. Alguém  adivinha quanto custa lá uma garrafa de água? Dois dólares e meio! Na moeda deles ainda é mais caro. Empancou? Tens de mudar o cartão.
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Publicado na DOMINGO CM

segunda-feira, junho 12

Os pobres do Alçada

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Se há assunto que sobremodo me põe a olhar vesgo, é a ternura que os bem na vida  demonstram pelos pobrezinhos. Não tanto pela vontade ou intento que badalam de ajudar, serem caridosos e terem pena, antes pela ideia que me dão de que para eles, mau grado a aparência de gente de carne e osso, os pobres não pertencem exactamente ao mesmo género de humanidade, antes parecem fazer parte de um amontoado de seres incapazes, ou desinteressados de encontrar um lugar ao sol. Além do nojo que lhes causam com as suas chagas e andrajos, importunando quem passa.
Não vá o leitor agora, apressadamente, ter ideia de que eu sou um desses espíritos atormentados que desesperam com a ineficácia da luta de classes e sonham amanhãs impossíveis. Não sou. E por estranho que pareça, o facto de que as origens, o local do meu nascimento e as circunstâncias, me tenham desde o berço feito lidar com pobres, também não contribuiu para suavizar as minhas opiniões.
Há pobres de que lamento o destino e procuro ajudar como posso; há pobres que me incomodam; há-os de quem fujo, tão grande é a aversão que me causa a visível malandrice e o explorar das suas mazelas.
Sou de um tempo em que na nossa aldeia transmontana os mendigos apareciam com uma curiosa regularidade, a ponto que às vezes se estranhava andarem atrasados, e se perguntava ao vizinho se por acaso este ou aquele pedinte já tinha aparecido para receber a esmola.
Não exagero se disser que nas aldeias havia para com esses  pobres, não somente caridade, procurando confortar-lhes a miséria, mas se usava a esmola como uma forma de exorcismo, para eventualmente afastar a má sorte de que nos pudesse acontecer a mesma desgraça.
A respeito de pobres, encontrei uma vez, no fim dos anos 90, uma situação bem estranha durante uma reportagem que fiz em Las Hurdes, então uma das regiões mais pobres de Espanha. Em povoações inteiras as pessoas e os animais viviam juntos em casebres miseráveis, por vezes apenas um mal tapado buraco entre rochas, com um tecto de bocados de lousa.
De um velho e caridoso médico ouvi aí a estranha revelação de que o ser mendigo era, em Las Hurdes a profissão mais respeitada e proveitosa. Percorriam a Espanha inteira e, recebendo muitas esmolas, eram os favoritos das raparigas casadoiras.
Já agora, que falamos de pobreza, contou-me o saudoso António Alçada Baptista que, era ele rapaz, um dia o correio bateu à porta para entregar lista telefónica.
- Que se faz à velha? – perguntou ele à mãe.
- Dá-se a um pobre.
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Publicado na DOMINGO CM.

terça-feira, junho 6

A minha mulher é um harém

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Misteriosa afirmação, a que o Aniceto (pseudónimo, claro) fez tempos atrás na cervejaria, onde costumamos encontrar os camaradas da Guiné: "Ninguém precisa de acreditar, mas às vezes acho que a  minha mulher é um harém!"
Fingimos não ouvir e mudámos de assunto, porque das duas uma: ou ele
desconhece o significado da palavra, ou atribui-lhe um estonteante e absurda qualidade. Tanto mais que a D. Noémia (também nome fingido, que o Aniceto foi campeão de judo e artes marciais), além de ir nos sessenta, é todo o avesso do que, quando as havia, e como nos mostram as pinturas antigas, se supõe fosse uma concubina de sultão.
Tem buço, voz forte, preferência por roupa de cabedal e, maldosamente, reconhece-se-lhe alguma semelhança com o boneco dos pneus Michelin. Fora esses particulares, ginga ao caminhar, arrasta o passo, pendem-lhe os cantos da boca num ar de desprezo, e porque essa especialidade da pastelaria lhe aperta o estômago e dá azia, fica de mau humor se alguém diz que gosta de pastéis de nata com canela,.
Todavia, isso é a aparência, a imagem pública, a D. Noémia que vemos entrar no café com o modo de quem frequenta estabelecimentos melhores, e está ali por acaso. Se reconhece um ou outro, acena um adeusinho para que se lhe notem os anéis e oiçam tilintar as pulseiras, e antes de se sentar roda sobre si mesma e olha a assistência, como se esperasse aplauso.
Na intimidade pode ser outra, de certeza é, pois ao dito de que quem vê caras não vê corações, talvez se possa acrescentar que também não vê camas. Mas a incógnita permanece e embaraça, custa manter um ar neutro na presença de alguém com aquele aspecto, e ao mesmo tempo imaginá-la nas acrobacias e variações do Kama Sutra.
"A minha mulher é um harém!" Ele só disse aquilo uma vez, e embora de facto não nos falte vontade de lhe pedir que esclareça, troque o dito em miúdos, sorrimos e abstemo-nos, porque se a explicação for tola lá se vai o gozo da fantasia. Além disso, porque lhe conhecemos o feitio, é bem capaz de levar a mal a curiosidade, e não se ensaia para, durante um tempo, deixar de vir às nossas confraternizações. O que nos custaria, porque mesmo de maus fígados, rabugento, sempre pronto a sentir-se malquisto ou prejudicado, o Aniceto é uma pérola de sujeito, e o mais capaz, entre nós, de manter aquele espírito de camaradagem que muito nos ajudou a sobreviver nas ‘bolanhas”, os pântanos da Guiné, e a escapar às emboscadas dos guerrilheiros, onde vimos morrer tantos camaradas.
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Publicado na DOMINGO CM